Existe a possibilidade de uma pessoa viver sem fé?

 É possível uma pessoa viver sem fé? Para respondermos a esse questionamento, precisamos partir do pressuposto de que temos dois tipos de fé: a natural e a sobrenatural. A fé natural é aquela que fundamenta as decisões humanas, sem a qual não poderíamos nem mesmo levantar da cama. Se utilizo um meio de transporte conduzido por outra pessoa é porque tenho fé na pessoa que o conduz, acredito que ela me levará até ao meu destino e em segurança; se me alimento é porque acredito que a comida não foi envenenada por quem a preparou. As relações humanas mais simples são altamente marcadas por realidades de fé.

 São Tomás de Aquino diz que: “A incredulidade é essencialmente contrária à natureza humana”, e o papa emérito Bento XVI diz: “Todo ser humano precisa ‘crer’ de alguma maneira” (RATZINGER, J. Introdução ao Cristianismo, p. 54); é uma confiança existencial tanto no sentido natural quanto no invisível, como veremos adiante.

 Quanto à fé sobrenatural, essa implica em acreditar e confiar em um Ser transcendente e, essa realidade, não é acolhida por todos. Falando sobre a fé cristã, o Catecismo da Igreja Católica § 26 nos diz que: “A fé é a ‘resposta’ do homem a Deus, que a ele Se revela e Se oferece resposta que, ao mesmo tempo, traz uma luz superabundante ao homem que busca o sentido último da sua vida”. Se ela é a resposta é porque existe uma “pergunta”. Nem todo homem escuta essa pergunta, seu ouvido pode estar fechado pelo racionalismo ou tantas outras realidades, por isso tantos não buscam a transcendência. A fé é um dom que vem de Deus, entra no homem e volta a Deus.




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A fé é um atributo humano, mas não é gerado pelo homem

 

 A palavra “fé” aparece 155 vezes na Sagrada Escritura. São Paulo diz na Carta aos Romanos 10,16 que: “… não são todos que prestaram ouvido à Boa-Nova”, e continua no próximo versículo: “a fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da Palavra de Cristo” (Rm 10,17); assim, entendemos que ela é recebida pela escuta, gerando uma atitude responsável na vivência do que foi ouvido.

É importante considerar, também, que essa resposta parte do ser humano de acordo com sua realidade sociocultural, pois, as realidades influenciam nela. Se sou imaturo, minha resposta, minha fé será imatura; se minha consciência for mórbida e doente, minha fé assim será também. Ela também é marcada, muitas vezes, pelos grandes silêncios de Deus, como cito no meu livro “O Segredo de Ser Você”: “Quando o Papa Bento XVI pisou no campo de concentração de Auschwitz, ele perguntou a Deus: ‘Onde Tu estavas enquanto tantos aqui morriam?’ Sua voz era o eco do grito de todos os que clamavam pelo Pai em meio ao terrível holocausto”. (ANA PAULA, Irmã. O Segredo de Ser Você. Planeta. São Paulo. 2019. Pág. 12). Ele não duvidava de Deus, mas demonstra, nessa pergunta, a confirmação da sua fé.

 

 Vemos também, na história de Israel, o silêncio de Deus na vida de Moisés, de Josué etc., na verdade, Deus instiga essa resposta. O silêncio de Deus nos afeta pelo fato de não sermos deuses, por isso, a fé é um atributo humano, mas não é gerado pelo homem.

Três componentes fundamentais: a fé experiência, a fé inteligência e a fé prática

Quando falamos de fé teologal, podemos pontuar três componentes fundamentais que deveriam estar interligados ao ser humano: a fé experiência, a fé inteligência e a fé prática.

Fé experiência (fides qua) – é a primeira fé, ainda bruta, uma fé afetiva, fiducial, de confiança. A experiência é uma forma de conhecimento, mas não tem um método em si mesma.

 

Fé inteligência (fides quae) – fé cognitiva e racional, onde Deus é estudado por seres humanos que, cognitivamente reconhecem-se limitados diante d’Aquele que é o Principio e o Fim. É um processo de lapidação onde, por meio da busca do conhecimento de Deus, gera maior qualidade da Fé, mas não substitui a “fé experiência”, pois existem pessoas que procuram somente a fé cognitiva, Deus é apenas um Objeto de estudo e nada mais. Essas pessoas negam a experiência, não criam relação com Deus, como o exemplo de Max Weber, citado acima, ou o de tantos outros que se denominam ateus.

 

Fé prática quando há um comprometimento de transmitir a fé com as atitudes, é uma fé encarnada e testemunhada. É quando damos razão à fé no cotidiano da vida. A fé não é sentimentalismo; é união, entrega, renúncia, fundamento, sentido, vida. É comprometimento com Deus e com Seu Reino.

 

Confiar em um Deus que não cabe em nossa inteligência

 No livro “Introdução ao Cristianismo”, o Papa emérito Bento XVI, dizia, retomando à ideia de Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês do século XIX: “fé é um salto sobre um abismo”. É saltar no invisível, em meio a um mundo mergulhado no positivismo que se fundamenta somente no que é visível; é confiar em um Deus que não cabe em nossa inteligência, mesmo vivendo em uma sociedade científica que aceita somente o que é factível.

A experiência de fé de Abraão nos mostra um homem que passou pelo processo de transição do que é estável e visível para acreditar numa promessa invisível, ampliando seus horizontes, numa confiança e abandono n’Aquele que lhe chamava. São João da Cruz diz que: “a Fé te guia, como pessoa cega: leva-te para onde e por onde não sabes; e jamais, por teus próprios olhos e pés, atinarias com este caminho e lugar, por melhor que andasses” (II N 16,7).

 

 No Credo nós proclamamos que cremos na fé da Igreja, e não numa fé individual ou fantasiosa. O homem pós-moderno, que repudia a Igreja, está negando aquela que é depositária e transmissora da fé. A fé é a ponte que nos conduz a Deus e nos possibilita responder ao chamado que Ele nos faz de sermos felizes ao Seu lado.

 

“Por fim, irmãos, orai por nós, para que a Palavra do Senhor se propague e seja estimada, tal como acontece entre vós, e para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque nem todos possuem a fé” (II Tessalonicenses 3,1-2).


Fonte: Canção Nova