Quando os papas sentam para ouvir, é ele quem prega: conheça o frei Raniero Cantalamessa

A Celebração da Paixão do Senhor é regularmente a única celebração litúrgica presidida pelo papa em que ele delega a homilia para outra pessoa. Na Sexta-Feira Santa, quando Francisco se sentou após a proclamação do Evangelho, quem subiu ao ambão para pregar em seu lugar – e para ele – será o frade capuchinho Raniero Cantalamessa. E não será, nem de longe, a primeira vez em que Cantalamessa fará isso. Na verdade, será a 37ª.

O frei Cantalamessa é desde 23 de junho de 1980 o pregador da Casa Pontifícia. Trata-se de um cargo criado no século XVI e desde 1743 reservado aos frades menores capuchinhos. Hoje as suas principais atribuições consistem em fazer uma pregação ao papa e aos membros da Cúria Romana todas as sextas-feiras do advento e da quaresma, além da homilia da Celebração da Paixão.

Há duas coisas muito interessantes a se pensar a partir disso. A primeira é a simples constatação de que mesmo o papa tem necessidade de se sentar e ouvir; de que é preciso semear o Evangelho, continuamente, também no coração do papa. Parece óbvio, mas o clericalismo faz com que muitos padres raramente se sentem para escutar um pregador, sobretudo quando se trata de alguém hierarquicamente inferior.

A outra coisa interessante é que dar-se conta de quem são as pessoas que os papas convidam para pregar a eles nos ajuda a entender melhor o seu pensamento – e certamente desconstrói alguns estereótipos. Nesse sentido, o fato de que Cantalamessa é o pregador pontifício há quase quarenta anos – ninguém no Vaticano detém um mesmo cargo há tanto tempo – tem muito a dizer.

A visão de Cantalamessa oferece uma boa chave de leitura para compreender o magistério pontifício no contexto de um revigorado anúncio do Evangelho no pós-concílio. Sua ênfase na fé como experiência de encontro com Jesus Cristo é a mesma que marcou os últimos pontificados e que poderia ser identificada com aquela “continuidade interior” de que fala Bento XVI. Posta no centro, essa dimensão experiencial e relacional da fé não se reduz a uma forma bonita de pregar, mas oferece uma compreensão renovada de cada aspecto da fé cristã a partir do seu núcleo.

Perfil

Não parece, mas Raniero Cantalamessa tem 83 anos – ele nasceu em 1934, em Ascoli Piceno, na Itália. Ordenado presbítero em 1958, ele inicialmente se dedicou à carreira acadêmica: doutorou-se em teologia – sua especialidade é a patrística – e em literatura clássica e foi professor de História do Cristianismo Antigo e diretor do Departamento de Ciências Religiosas na Universidade Católica de Milão. Entre 1975 e 1981, foi membro da Comissão Teológica Internacional, um órgão da Santa Sé.

Foi nesse período, porém, que ele teve uma experiência profunda do amor de Deus, ao se aproximar da Renovação Carismática Católica (RCC). Inicialmente, Cantalamessa era um opositor da RCC. Pouco a pouco, porém, seu profundo conhecimento sobre as origens da Igreja fez com que ele percebesse que nos grupos carismáticos acontecia algo semelhante ao que se dava nas primeiras comunidades cristãs.

As reservas de Cantalamessa cederam paulatinamente e, em um encontro em Nova Jersey, nos Estados Unidos, ele aceitou receber a efusão do Espírito Santo. “Enquanto me diziam: ‘Escolhe Jesus como Senhor de tua vida’, levantei os olhos e vi o crucifixo que estava sobre o altar da capela. Era como se ele me esperasse para me dizer algo muito importante: ‘Atenção! Raniero! Este é o Jesus que tu escolhes como teu Senhor, o Crucificado. Não é um Jesus fácil, sentimental’”, conta o frade. “Nesse momento, entendi que a RCC não é um fenômeno superficial, mas algo que nos leva diretamente ao coração do Evangelho, à cruz de Cristo”.

A partir dali, Cantalamessa passou a experimentar algo novo na oração, sobretudo na liturgia das horas. “Vocês sabem que um dos frutos mais evidentes do Espírito é abrir a nossa inteligência para entender as Escrituras. Outro sinal da transformação que o Espírito operara em mim era o novo desejo de rezar”, diz. “Três meses depois voltei à Itália e os meus irmãos diziam: ‘Que milagre! Mandamos à América Saulo e nos mandaram de volta Paulo’”.

Vocação

“Senhor, não permita que eu morra como um professor universitário aposentado!”: o próprio Cantalamessa admite que se surpreendeu ao ver essa oração emergindo de seu coração. “O Senhor levou a sério minha oração”, conta. Semanas depois, em oração, visualizou Jesus que, voltando de seu batismo no Jordão, começava a pregar. “Ao passar por mim ele dizia: ‘Se queres me ajudar a proclamar o Reino de Deus, deixa tudo e vem!’”, relata o frade.

“Compreendi que ele queria dizer: ‘Deixa tua cátedra na universidade, tua direção de departamento e torna-te um pregador itinerante da Palavra de Deus, no estilo de São Francisco de Assis’. E ao final daquela oração o Espírito havia colocado em meu coração um ‘sim’”, lembra Cantalamessa. Depois de um ano de discernimento, ele recebeu a permissão do seu superior para abandonar a vida acadêmica e dedicar-se à pregação. Três meses depois, São João Paulo II o convidou para ser o pregador da Casa Pontifícia.

O predecessor de Cantalamessa, o frei Ilarino da Milano, ficou no cargo por 21 anos: foi nomeado por São João XXIII em 1959 e chegou a ser perito do Concílio Vaticano II. Parece um tempo longo, mas Cantalamessa está quase chegando ao dobro: em junho completa 38 anos como pregador pontifício. Foram 25 anos de serviço a São João Paulo II, que o nomeou para o cargo. Uma vez eleito papa, Bento XVI confirmou-o na função e Francisco também optou por mantê-lo.

Além de suas atribuições junto à Santa Sé, Cantalamessa faz pregações por todo o mundo e publica numerosos livros de espiritualidade – boa parte deles reunindo as pregações feitas na presença do papa. Quando não está em viagem ou no Vaticano, vive em um eremitério na cidadezinha de Cittaducale, a serviço de uma comunidade de monjas.

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