Reflexão: Viver segundo o Espírito

Pouco tempo atrás, um amigo me mandou uma mensagem por e-mail que terminava com este pensamento: “Seja qual for a posição do corpo, a alma pode estar sempre de joelhos”.
Os antigos navegantes dos mares se guiavam pelos astros.
Era olhando para as estrelas que eles sabiam a rota a seguir.
Famosa ficou a estrela de Natal que guiou os reis magos até o presépio de Jesus. Em certos pontos da costa, existem faróis que sinalizam aos navios a proximidade de acidentes que podem provocar seu afundamento.
Nos aeroportos, há luzes que apontam a direção para os aviões e birutas que indicam a direção dos ventos.
As estradas do mundo estão repletas de sinalizações para indicar o caminho e chamar a atenção dos viajantes.
A agulha da bússola sempre aponta para o Norte magnético da terra e, assim, orienta quem dela se serve.
Não haverá também indicadores que mostrem o rumo do coração?
“Coração”, em sentido bíblico, é o centro do ser humano, sede de tudo aquilo que a pessoa é diante de si mesma, diante dos outros e diante de Deus.
Existem, sim, esses indicadores, e foram postos ao longo do nosso caminho por Jesus.
Aliás, Ele mesmo se disse é o Caminho, e acrescentou : “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (João 8,12).
Outro grande “sinalizador” para a nossa vida é o Espírito Santo: “o Espírito da Verdade” – como disse Jesus – “ensinar-vos-á toda a verdade” (João 16,13).
Um terceiro sinalizador é a Igreja: por meio do seu Magistério, ela nos transmite a Palavra de Deus, a santa vontade do Pai.
Um quarto sinalizador é a Sagrada Escritura (Bíblia) que a Igreja nos garante conter a Palavra de Deus escrita, inspirada pelo Espírito Santo.
Fiquemos por aqui.
Há mais “sinais” de Deus ao longo do nosso caminho: os famosos “sinais dos tempos” de que falava o Beato João XXIII.
Na verdade, tudo o que existe – da menor à maior das criaturas –, tudo o que acontece, em pequeno e em grande, tudo é sinal de Deus para quem tem fé.
Como ensina São Paulo: “Tudo colabora para o bem dos que amam a Deus” (Romanos 8, 28).
Envolvidos por sinais, mergulhados em sinais de Deus, não podemos perder o caminho que nos leva diariamente a Ele.
Pergunta oportuna: por que toda essa conversa sobre sinais e sinalizadores?
Resposta: porque “espiritualidade” consiste precisamente em seguir na vida de cada dia o caminho que esses sinalizadores nos apontam.
Houve um tempo não muito distante – talvez haja ainda –, em que pronunciar a palavra “espiritualidade” causava arrepios em algumas pessoas, porque, segundo elas, tratava-se de “intimismo”.
Intimistas são aqueles cristãos que cultivam somente afetos, sentimentos, orações melosas, individualistas, totalmente desligados da realidade concreta: rezam muito, mas não se comprometem com nada.
De fato, o intimismo não leva a nada, é só ilusão de religião.
Nem por isso, todavia, deve-se aborrecer a palavra “espiritualidade”, pois ela indica com perfeição o de que se trata: trata-se de viver segundo o “Espírito”.
Como ensina S. Paulo: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus” (Romanos 8,14).
Esses são os verdadeiros homens “espirituais”, que vivem a verdadeira “espiritualidade”.
Portanto, nada de medo da palavra em discussão.
Espiritualidade consiste em deixar-se guiar pelos sinais de Deus, particularmente por Jesus (suas palavras e exemplos), pelo Espírito Santo (suas inspirações interiores), pela Igreja (seu Magistério) e pela Bíblia (lida na Igreja e tal como a Igreja a interpreta), que são os sinais mais importantes que nos podem orientar.
Esses quatro sinalizadores nos mostram o caminho a seguir.
Seguindo o caminho indicado, nos tornaremos realmente “espirituais”, viveremos uma verdadeira espiritualidade.
Explicitando melhor as coisas, a espiritualidade é viver a vida de cada dia, como ela é, tomando Jesus como nosso guia, nossa luz.
Tudo o que nos convém, nos vem por meio de Jesus: ensinamentos, palavras, exemplos, Igreja, sacramentos, Espírito Santo.
Tudo isto nos ajuda a viver a vida quotidiana da forma que Jesus nos ensinou: isso é espiritualidade.
Espiritualidade não é só rezar, não é só sacramentos, não é só atos religiosos…
Espiritualidade é também trabalho, estudo, relacionamentos, compromissos, lazer, alegria, enfermidade, saúde, inclusive morte… tudo vivido conforme Jesus nos ensinou.
Não é sem motivo que entre as pessoas que mais se comprometeram com obras sociais e com a transformação da sociedade e do mundo estão os santos e santas.
Quanto mais alguém se deixa guiar pelo Espírito, tanto mais se compromete na transformação da realidade, tanto mais quer que o mundo seja evangelizado.
Citemos São Vicente de Paulo, Dom Bosco, Madre Teresa de Calcutá…
O Espírito conduz as pessoas por caminhos diversos e concede a cada uma os dons que Ele quer.
É assim que a alguns santos e santas, Ele concedeu dons extraordinários, como milagres, experiências místicas fora do comum.
Isto, porém, não significa que nós, digamos, gente comum, não possamos e devamos viver uma espiritualidade autêntica.
Há muitos santos e santas que não fizeram nada de fora do comum, não receberam dons especiais, e são grandes santos.
Pos bem, viva a sua vida de cada dia, viva intensamente, saboreie a vida como ela é, aceite a vida como ela vem pela frente, mas faça tudo isso sempre e só de acordo com Jesus, o Espírito Santo, a Igreja e a Escritura.
Você será um grande “espiritual” e não se perderá por caminhos onde a falta de sinalizadores provoca acidentes e desastres.
Entre os meios que nos ajudam nesse esforço está a meditação da Palavra de Deus, a oração, o desapego dos bens terrenos, a renúncia ao mal, os sacramentos da reconciliação e da eucaristia, a orientação espiritual, a devoção à Mãe de Deus.
Tudo nos ajuda a estarmos sempre voltados para o Senhor, sem descuidarmos de nossas tarefas terrenas.
Voltemos, pois, à frase do início: “Seja qual for a posição do corpo, a alma sempre pode estar de joelhos”.
Seja o que for aquilo que fazemos durante a vida, sempre podemos “estar de joelhos” diante de Jesus, quer dizer, sempre podemos – e devemos, como discípulos seus – estar voltados para Ele e receber dele a luz, a palavra que nos indica o caminho.
Sigamos por esse caminho e estaremos vivendo uma autêntica espiritualidade, porque tudo o que Jesus nos aponta, Ele o aponta por meio de seu Espírito.
Como diz S. Paulo, recordado acima: “Os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus” (Romanos 8,14).

Por Dom Hilário – Fonte: http://www.domhilario.blogspot.com/