Espírito da Unidade

Por vezes se pensa na unidade dos cristãos como impossibilidade, devido aos revezes da história, com suas múltiplas divisões. Parecia impossível alguma mulher ter filho na velhice, como aconteceu com Isabel, e a própria Maria conceber o Filho de Deus sem a intervenção de um homem. Na verdade, nada é impossível para Deus. Não é sem motivo que

invocamos o Espírito Santo para nos ajudar na unidade dos cristãos, tão querida por Jesus: “Que eles sejam um como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade, e para que o mundo reconheça que tu me enviaste” (Jo 17, 22-23).

Mas a natureza da união não se dá apenas com as características do humano. Este é frágil e de tendência egoísta. A ação do amor divino faz-nos superar nossos próprios limites. Por isso, a oração nos garante o atendimento do Espírito Santo para superarmos nossos impasses humanos, pessoais, eclesiais, históricos e circunstanciais. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, terminada com a festa de Pentecostes por nós celebrada no Brasil, nos dá grande força para melhor promovermos a união desejada pelo Divino Mestre. Afinal, nas separações, falta de entendimento e amor, não conseguimos estimular muitos a melhor seguirem os passos de Jesus. Há cem anos, aconteceu a conferência missionária de Edimburgo, na Escócia, em que cristãos de diferentes Igrejas resolveram se unir para levar a Boa-Nova de Jesus aos não cristãos, tendo a convicção de que teriam força na evangelização, dando exemplo de vida unida no amor.

Hoje vivenciamos tantas propostas diferenciadas. Mas grande parte das pessoas é estimulada e se convence de seus valores pela visualização da imagem ou da prática do amor testemunhado na vida de quem apresenta as propostas. O Papa Paulo VI, de feliz memória, dizia que as pessoas são movidas mais pelo testemunho do que pelas palavras. A própria torre de Babel, apresentada pela Bíblia (Cf. Gênesis 11, 1-9), mostra o desejo humano de encontrar Deus, mas no desentendimento de todos não é possível chegar a seu intento.

Quando temos plena convicção de nossa fé não temos medo de ir ao encontro do outro, perceber e valorizar seus dons. Estes, muitas vezes coincidem ser também os nossos. Desta forma, temos oportunidade de nos unirmos com os mesmos valores para ajudarmos a sociedade, a partir de nossa fraternidade e união de esforços. Somos, assim, coerentes com o ensinamento de Jesus. Cristãos que se digladiam, vivem em seus fundamentalismos e desclassificam os outros desobedecem ao próprio Jesus. Ninguém tem o direito de dizer “estou salvo e os outros estão condenados”! O julgamento negativo em relação aos outros bloqueia nossa capacidade de fraternidade. Os primeiros cristãos eram admirados pela sua convivência no amor. As diferenças e até erros devem ser superados com a caridade e a correção fraterna e não com a destruição dos outros.

O Espírito Santo é nosso grande refúgio para termos força de união. Abertos à sua ação, tornamo-nos pessoas dialogáveis e fraternas. Temos muito mais pontos de convergência para superarmos nossos limites do que divergências. O Espírito Santo nos inspire e ajude a promover a unidade crescente, para que o mundo creia: “Vinde Espírito Santo e acendei neles o fogo do vosso amor; tudo será criado e renovareis a face da terra”!

 


Dom José Alberto Moura

É Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Primeiro Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic). Nasceu em Ituiutaba, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1943. Pertence à Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo (CSS). Foi nomeado Arcebispo Metropolitano de MOC em 07 de fevereiro de 2007, tomando posse nesta Igreja Particular em Missa Solene no dia 14 de abril do mesmo ano.