Meditação para a V Semana da Quaresma

“Portanto, o ponto a que chegmos marcará para nós a direção”.

A vida cristã é uma caminhada permanente, rumo à Páscoa, rumo à Ressurreição. Neste tempo de Quaresma, fomos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e a aderir à vida nova que Deus nos propõe.

Cada Quaresma é um abalo que nos desinstala que põe em causa o nosso comodismo, que nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca do Homem Novo.

Tomamos a segunda leitura deste quinto domingo quaresmal Filip 3,8-14 para nortear nossa reflexão.

 

Irmãos:

Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor.

Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e se funda na fé.

Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos.

Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição.

Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus.

Não penso irmãos, que já o tenha conseguido.

Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para frente, continuar a correr para a meta, em vista do prêmio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.

Paulo pede aos Filipenses que não se deixem enganar por esses falsos pregadores, super-entusiastas, que se apresentam com títulos de glória e que parecem esquecer que só Cristo é importante.

Os Filipenses – e, claro, os crentes de todas as épocas – farão bem em imitar Paulo e esquecer tudo o resto (a circuncisão, os ritos da Lei, os títulos de glória são apenas “prejuízo” ou “lixo” – vers. 8). Só a identificação com Cristo, a comunhão de vida e de destino com Cristo é importante; só uma vida vivida na entrega, no dom, no amor que se faz serviço aos outros, ao jeito de Cristo, conduz à ressurreição, à vida nova.

Mais um dado importante: Paulo está consciente que partilhar a vida e o destino de Cristo implica um esforço diário, nunca terminado; é, até, possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita e o caminho da entrega e do dom da vida é exigente. Mas é o único caminho possível, o único que faz sentido, para quem descobre a novidade de Cristo se apaixona por ela. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho.

Interessante um dia eu me encontrava em oração e tomei a sagrada escritura que se encontrava na minha capela e era a Bíblia do Peregrino e me chamou profundamente atenção este verso 16 no qual a tradução assim apresenta: “Portanto, o ponto a que chegamos marcará para nós a direção”.

Incrível como isso me marcou profundamente, ai ao ver o rodapé ainda apresenta assim: “devemos manter o que temos alcançado”.

Temos aqui um exemplo proposto não de algo acabado, mas um esforço constante para o aperfeiçoamento.

Na ascese teresiana – Santa Madre Teresa de Jesus goza um papel importante a atitude decidida e totalitária de entrega a Deus.

Teresa a chama “determinada determinação”, com uma frase muito sua na qual quis realçar a fortaleza e a totalidade da entrega a Deus.

“Determinar-se” é começar uma nova vida; “determinada determinação” ‘’é encurtar as distâncias e fazer de tudo para não voltar atrás; é fazer uma “opção fundamental” por Cristo.

Nosso Deus-Pai é infinitamente bom permite-nos que andemos pela estrada que escolhemos, mesmo tendo-nos manifestado repetidas vezes desejos e propostas de amor e de felicidade eterna.

Se alguém pretende dispor de si, Deus-Pai não impedirá nossa decisão. Infelizmente quem decidiu sem Deus, poderá experimentar que a vontade de emancipação se torna pesadelo.

Toda nossa vida só tem uma meta e um objetivo direcionados para a Eternidade – O Eterno e o Absoluto, o totalmente Outro.
                          
DETERMINADA DETERMINAÇÃO

A palavra-chave aparece com força na experiência teresiana nos momentos cruciais de sua vida; e a aplica também em sua pedagogia.

Momento de conversão que a santa identifica com a vontade de empreender o caminho da oração: “Falando agora dos que começam a ser servos do amor (que não me parece outra coisa além de nos determinarmos a seguir por este caminho ao que tanto nos amou” (V 11,1); “Pois no princípio está a maior dificuldade dos que estão determinados a buscar este bem e a realizar este empreendimento”(ib. 5). A tensão aumenta em uma passagem polêmica do Caminho de Perfeição em que a santa defende o que constitui a essência de sua vida e de seu Carmelo, a oração: “Não vos espanteis, filhas, com as muitas coisas que é necessário considerar para iniciar esta viagem divina, que constitui a via régia para o céu… Voltando agora aos que desejam seguir por ele e não parar até o fim, que é chegar a beber dessa água de vida, como devem começar? Digo que importa muito, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não suporte os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo…” (C 21, 1-2).

Trata-se de uma atitude do momento da conversão, porém que se manifesta em uma condição normal de vida espiritual até alcançar os mesmo cumes da santidade. Quanto mais aparecem as dificuldades, maior fortaleza se requer. Tem a beleza do risco assumido generosamente e do compromisso totalitário da entrega.

Com essa atitude de base tem o espiritual garantida a vitória sobre o demônio e percorrida boa parte do caminho: “o demônio se afastará depressa se a vir com grande determinação de não voltar às primeiras moradas, preferindo a isso perder a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece. Que seja viril… determine-se com firmeza: vai pelejar com todos os demônios e não melhores armas do que as da cruz” (1M 1, 6); “a alma que neste caminho da oração mental, começa a caminhar com determinação… tem andado boa parte do caminho” (V 11, 13).

Contando desde o início da vida espiritual com a presença da cruz, a alma sabe o que escolhe nessa determinada determinação que terá de renovar constantemente: “… É fundamental que a alma… decida desde o início seguir com determinação, e sem querer consolações, o caminho da cruz. O Senhor revelou ser essa a trilha da perfeição ao dizer: “Toma a tua cruz e segue-me”. Ele é o nosso modelo…” (V 15, 13).

Nos encontramos na encruzilhada de uma escolha totalitária de Deus que não admite meias medidas, ele respeita nossa liberdade, porém, sua entrega está condicionada pelo radicalismo de nossa opção por ele: “Tudo reside em nos entregar a Ele com toda a determinação, deixando o palácio à sua Vontade, para que Ele ponha e tire coisas dele como se fosse propriedade sua.

E Sua Majestade tem razão; não lhe neguemos o que nos pede. “E como não pretende forçar a nossa vontade, Ele recebe o que lhe damos, mas não se entrega de todo enquanto não nos damos a Ele por inteiro” (C 28, 12).

Vamos refletir:

Os termos conhecer e conhecimento em S.Paulo neste texto aos Filipenses devem ser aqui entendidos no mais genuíno sentido da tradição bíblica, quer dizer, no sentido de “entrar em comunhão de vida e de destino” com uma pessoa. Aquilo que ele procura agora e que é o fundamental é identificar-se com Cristo, a fim de com Ele ressuscitar para a vida nova. Buscas este conhecimento e vais ao encontro da configuração com Jesus Cristo como um consagrado a Ele?

Paulo convida a dar prioridade ao que é importante – a uma vida de comunhão com Cristo, que nos leve a uma identificação com o seu amor, o seu serviço, a sua entrega. Qual é o “lixo” que me impede de nascer, com Cristo, para a vida nova?

É preciso, igualmente, ter consciência de que este caminho de conversão a Cristo é um caminho que está, permanentemente, a fazer-se. O cristão está consciente de que, enquanto caminha neste mundo, “ainda não chegou à meta”. A identificação com Cristo deve ser, pois, um desafio constante, que exige um empenho diário, até chegarmos à meta do Homem Novo. “Portanto, o ponto a que chegamos marcará para nós a direção”. Que esforços tem feito?

O que é que, na minha vida, necessita de ser transformado?
O que é que ainda me mantém alienado, prisioneiro e escravo?
O que é que me impede de imprimir à minha vida um novo dinamismo, de forma que o Homem Novo se manifeste em mim?

 

Pe. Emílio Carlos Mancini

Fundador e Moderador Geral Com. Alpha e Ômega