Ascese – Pe. Carlos Mancino

Pela ascese a alma colabora e se dispõe para receber sempre mais profundamente a ação do Espírito Santo. A ascese propõe a “via régia” que leva a Cristo Ressuscitado através da mortificação, penitência e oração, até a iluminação carismática onde a alma encontra a imagem divina. Purificação, iluminação, união transformadora segundo os diversos graus da ascensão espiritual que se aproxima sempre mais do divino.

E como a humanidade padecente do Cristo não pode ser separada de sua divindade triunfante, a purificação da ascese traz consigo o germe da glorificação futura na união com Deus.

A ascese e a vida angelical na terra constituem o propósito próprio dos batizados chamados a santidade de vida. Sendo o destino da alma humana essencialmente o retorno a Deus, o cristão com sua vida dá testemunho do mistério escatológico da História. Isaac de Nínive afirma que “o arrependimento é o tremor da alma diante das portas do paraíso”. E São João Clímaco: “Cristão é aquele que soube conservar o mesmo ardor até o fim, aquele que acrescenta sem se cansar, até o termo da vida, fogo ao fogo, ardor ao ardor, zelo ao zelo, desejo ao desejo”.
Para se entregar a Deus, o cristão tem como objetivo a leitura da Palavra divina, a busca da vontade de Deus, a obediência aos superiores e a doutrina, a caridade fraterna, o arrependimento dos pecados, a pobreza, o trabalho, a virgindade, a seleção dos pensamentos, o jejum, a humildade, as lágrimas.
A prática constante e paciente dessas virtudes leva enfim a alma à humildade e à caridade.
A humildade abate o vício principal que é a soberba. A humildade liberta; pertence aos “pobres de espírito”. Desconhecida dos pagãos, a humildade “é a mãe, a nutriz, a base e sede de todas as outras virtudes”, “é a toda virtuosa”. O modelo da humildade é Jesus.

A humildade humana é a réplica da humildade divina, da Kenosís do Servo de Javé, do homem das dores, do Criador onipotente, do Rei dos reis, que se toma o servo crucificado. A humildade vence o orgulho, e egocentrismo. O humilde não faz o mundo girar em torno do próprio “eu”, causa de todo pecado, mas se coloca em Deus e assim encontra o seu lugar exato. Por isso “a santidade consiste na profundidade da humildade”.

“Quando o humilde, nos sofrimentos e nas perseguições dos homens e dos demônios até o limite do suportável, diz “glória a Deus,” e redobra a oração pelos próprios perseguidores, então ele entra no coração de Deus e tem a graça de compreender o indizível. Assim também quando, depois de ter visitado o homem, Deus se retira, isto é graça. É a pedagogia divina da desolação educativa, que serve para tornar a alma ainda mais humilde. “A graça se retira, para que nós a procuremos ainda mais”. “Encontrar a Deus consiste em procurá-lo continuamente, e ver a Deus é jamais saciar-se de desejá-lo”.

Quando a procura de Deus é particularmente intensa e tomou posse já de toda a alma, cai o temor e ela diz: “Agora já não temo a Deus; eu O amo!” E aparece então o dom das lágrimas.

É a alma-Maria-Madalena, que se derrama em pranto aos pés de seu Senhor. Lágrimas de dor por tê-lo tanto ofendido no passado, lágrimas por lhe ter sido tão ingrata, lágrimas de desejo, lágrimas de alegria, lágrimas de amor.
Se na ascese conventual os monges têm como propósito “a vida angelical na terra”, os cristãos que vivem no século devem ter propósitos complementares: permanecer no mundo (cf. Jo. 17, 15-16) para instaurar o reinado de Deus no mundo (cf. Jo. 17, 21; Mc. 16, 15; At. 26, 13) e levar o mundo transfigurado a Deus (cf. Jo. 3, 16-17; 6, 37-52).

Os dois caminhos devem conduzir ao mesmo cume, ao repouso em Deus, à alegria de Deus. Por isso, São João Crisóstomo se dirigia deste modo aos seus fiéis: “Quando Cristo ordena que o sigamos pelo caminho estreito, dirige-se a todos os homens. Por conseguinte, o monge e o secular devem alcançar os mesmos píncaros”.
Os leigos não pronunciam votos de castidade ou de pobreza, mas deve encontrar para eles o exato equivalente, viver o seu espírito: “Aqueles que vivem no mundo, mesmo casados, devem em tudo o mais assemelhar-se aos monges”. E continua São João Crisóstomo: “A tua casa deve ser como uma igreja; põe-te de pé no meio da noite. Durante a noite, a alma é mais pura, mais leve. E se tens filhos, acorda-os e faz com que se unam a ti numa oração comum”.

 

Pe. Emílio Carlos Mancini, A†Ω

Fundador da Comunidade Alpha e Ômega 

 

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