Mais feliz que um príncipe

Narração de um fato autêntico no princípio do século XX na Alemanha.

Três horas da madrugada. Em casa de Luís começa a tocar subitamente o telefone. Levanta-se e toma nervosamente o aucutador.

 

– Sim!… Sim, Sim!

Um instante de silêncio. Luciana, mulher de Luís, acorda estremunhada.

– Eu parto imediatamente – diz o dono da casa.

E Luís, pálido, pois a o auscutador:

– Então, que há? Pergunta Luciana.

– Uma desgraça! O meu pobre Tiago, o meu pobre irmão… encontraram-no no quarto, morto!

– Isso é lá possível!? Não há ainda cinco dias que nós o vimos! –  exclama a cunhada.

– Incrível tens razão. Mas é o que me acaba de anunciar a dona da pensão. Meu pobre Tiago!…

Calaram-se ambos. Mais que luto, entristecia-os o mesmo sombrio pensamento.

– O que mais me aflige – murmurou tristemente Luciana – é que pensar como terá ele comparecido diante de Deus: há tantos anos que não recebia os sacramentos.

Luís, com ar embaraçado, não responde palavra.

Pelo caminho foram-lhe passando pela cabeça vários pensamentos:

– Ele não tinha mais que 35 anos . O meu pobre Tiago! Ôh, que felizes vivemos juntos, sob os olhares de nossa  mãe tão piedosa! Estou ainda a ver a velha casa paterna, tão pertinho da Igreja. E nós íamos comungar, Tiago e eu, todas as primeiras sextas-feiras do mês… Fizemos mais de uma vez essa novena. A nossa mãe  falava-nos amiúdas vezes da grande promessa do Coração de Jesus!

Que piedade a de Tiago nessa época! Uma vez, estávamos em casa de nosso tio, a cinco quilômetros da Igreja. Tiago  partiu, ainda de madrugada, para não faltar à comunhão da primeira Sexta-feira e  alcançar a graça da salvação, prometida por Nosso Senhor a quem tiver cumprido tal devoção.

À morte de nossa mãe, veio-lhe a infeliz idéia de procurar fortuna nos Estados Unidos. Foi lá na Califórnia, que ele se casou com uma protestante e deixou os deveres de católico. Quando voltou para a terra, viúvo já não era o mesmo. Não ia à missa e deixou  a Comunhão das primeiras sextas-feiras.

E, para mais, protestante era também a dona da pensão em que ele vivia! Com certeza que esta não chamou um sacerdote na última hora. Será possível que o meu  irmão tenha comparecido diante de Deus sem receber os Sacramentos? Não acredito. Não pode ser.

Quando Luís entrou no quarto de Tiago viu o seu cadáver deitado sobre o sofá. O médico encontrava-se ainda presente.

Estava longe  de recear uma morte tão rápida, afirmou o doutor.

È verdade que Tiago, quando me veio consultar parecia bastante indisposto, mas…

– A última noite – interrompeu o filho da dona da pensão – acordei. Vi luz no quarto  do senhor Tiago. Bati à porta. Não tive resposta. Então, abri… E encontrei-o estendido morto no chão.

– E não mandou chamar um padre? – Perguntou Luiz. Você não estava farto de saber que o meu  irmão era católico?

– Católico? Tinha sido. Agora… não parecia… foi tudo tão de repente…

Luiz caiu de joelhos junto do cadáver do irmão.

– Tiago, meu pobre irmão, morreste sem sacramentos!… Depois de tantas primeiras sextas-feiras!…

De joelhos,  cotovelos apoiados no sofá, cabeça entre as mãos, chorava de tristeza… A dona da pensão tentou consolá-lo:

– O seu irmão, estou bem certa, não deve ter sofrido muito. Veja – acrescentou ela tristemente – acabava de escrever uma  carta dirigida para si. Foi o que nos permitiu encontrá-lo e telefonar-lhe.

Luiz abriu a carta com ansiedade:

Eis o que dizia:

“Meu caro irmão! Amanhã tenho de tratar de um negócio urgente. Torna-se-me impossível dar os parabéns à tua esposa. Has de fazer-me a fineza de ser o intérprete das minhas congratulações pelo seu aniversário.

Esta manhã, primeira Sexta-feira do mês e aniversário de morte de nossa mãe, confessei-me e comunguei, o que há tantos anos não fazia. Sinto-me mais feliz que nem um príncipe. Um abraço do teu irmão Tiago”.

– Meu Deus! Perdoai-me ter duvidado – exclamou Luiz. AS primeira Sexta-feira! O Coração de Jesus! Eu bem o devia saber!

E voltou para casa consolado, ansioso por contar à esposa como  o Coração de Jesus tinha cumprido a sua grande promessa de salvação e de não deixar morrer sem sacramentos quem tiver feito as primeiras sextas-feiras.