Perfil do catequista

 

JOSÉ CARDOSO DE ALMEIDA (*)

Para se traçar o perfil do catequista, será preciso, em primeiro lugar, “esclarecer a identidade da catequese” (ATV1 – Orientações 1), uma vez que terá de ser esse o verdadeiro ponto de partida.

Procurar-se-á, deste modo, uma leitura do documento da Conferência Episcopal Portuguesa: “Para que Acreditem e Tenham Vida – ¬Orientações para a catequese atual”, tentando extrair dele alguns elementos essenciais do perfil do catequista, mesmo se, certos aspectos aparecem apenas enunciados.

Perspectiva de catequese

O próprio título escolhido para este documento não é casual. A relação “acreditar – ter vida”, se, por um lado, nos faz mergulhar na frescura da perspectiva evangélica, por outro, assume a novidade introduzida pelo Diretório Geral de Catequese. Pretende-se, com a catequese, que os convertidos sejam “iniciados no mistério da salvação e num estilo de vida evangélico (ATV 4; cf DGC 63), isto é, numa fé viva e completa, que acredita, celebra, testemunha e ora.

É assim que, sem excluir outras dimensões da catequese, as Orientações dos nossos bispos centram-na no horizonte da iniciação cristã. Afirmam literalmente que “a catequese está ao serviço da iniciação cristã” (ATV 4). De fato, a catequese é um “elemento” fundamental da iniciação cristã e está estreitamente ligada aos sacramentos de iniciação… favorecendo “uma profissão de fé viva, explícita e atuante” (DGC 66). Fica clara esta ligação fundamental da catequese à iniciação cristã. Mais ainda, a iniciação cristã é o horizonte no qual se inscreve a catequese, é o âmbito que ilumina os próprios objetivo da ação catequética.

A ligação da catequese à iniciação cristã tem como conseqüência um certo perfil de catequista, que a seguir se procura caracterizar.

 

Perfil do catequista - Editora Com Deus

 

Aspectos essencias do perfil do catequista

1. Discípulo de Cristo

Os catequistas “não se devem considerar como professores que ensinam a doutrina cristã, mas, sobretudo, como discípulos de Jesus Cristo” (ATV 5). O Senhor Jesus convida, de uma forma específica, homens e mulheres, para O seguirem como Mestre, para serem seus discípulos. Este chamamento pessoal de Jesus Cristo e a relação com Ele são o verdadeiro motor da ação do catequista. É deste conhecimento amoroso de Cristo que jorra o desejo de O anunciar e de levar outros ao “sim” da fé… (cf DGC 231). Verificamos assim que a primeira condição para alguém ser um anunciador e testemunha, isto é, um catequista, consiste em viver decididamente a fé como relação pessoal com Cristo. Sem esta vivência, não há conhecimentos ou técnicas que sirvam. Esta condição, que parece óbvia, torna-se hoje decisiva, num mundo carregado de materialismo e de idolatrias de toda a ordem. A primeira “competência” do catequista é sentir-se amado por Deus e escolhê-lO como ideal, amar Jesus como o único bem e treinar a perseverança nesse amor primeiro. A catequese tem uma grande preocupação pela conversão: antes de mais a conversão inicial, como adesão clara a Jesus Cristo. A catequese tem como tarefa a conversão ao Senhor e a comunhão com Ele (cf ATV 2). Importa fazer surgir verdadeiros discípulos de Cristo (cf ATV 1), não descurando a conversão continuada, no dia-a-dia, a perseverança na vida da fé, avivando-a constantemente (cf CT 19).

2. Testemunha pela alegria e amor

Os catequistas são “testemunhas da experiência de fé das comuni¬dades” (ATV 5). Numa catequese verdadeiramente cristocêntrica, o catequista não pode ser senão uma testemunha. Se estivesse em causa apenas uma doutrina ou somente uma moral, não haveria necessidade de que o catequista fosse testemunha; porém, tratando-se de uma Pessoa, de um acontecimento, a catequese exige o testemunho: “O que vimos e ouvimos, vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1 Jo 1,3). A catequese há de ser um anúncio alegre de uma boa notícia, já encarnada na vida do catequista.
“Jesus Cristo deve ser apresentado como Boa Nova, fonte de esperança e de sentido para a vida humana e para as questões das pessoas e da sociedade” (ATV 3) e apresentado através de um testemunho completo. Trata-se do testemunho teologal (“o que vimos…”, revelação) e moral (da caridade). De fato, o mundo de hoje escuta sobretudo testemunhas.

3. Mandato pela Comunidade

A ligação entre catequese e comunidade está fortemente realçada nas próprias Orientações: “A comunidade cristã é o sujeito, o ambiente e a meta da catequese. Na verdade, a vida cristã é um facto comunitário, recebe-se, aprende-se e vive-se na Igreja, mistério de comunhão” (ATV 5).

A comunidade cristã é o ambiente. Esta afirmação aparentemente tão simples centra a catequese na comunidade. Por isso, mesmo que se constate a dificuldade de muitas famílias na “transmissão da fé”, mesmo que a cultura funcione como uma “pressão para fora”, mesmo que estejamos ainda à procura das melhores pedagogias, enquanto houver comunidade, há catequese. O contrário também é verdade: sem uma comunidade viva, podemos até fazer instrução religiosa, mas dificilmente faremos catequese, porque nos falta o “habitat” natural, falta-nos o “seio materno” eclesial onde podem germinar e crescer novas vidas para a fé.

Naturalmente que não basta uma comunidade com relacionamentos débeis, tipo aglomerado religioso, como uma associação cultural. É preciso construir comunidades vivas, vivificadas pela Palavra, alimentadas pelos sacramentos e com a marca da caridade e da comunhão. “A dimensão comunitária da catequese implica a renovação da Igreja na perspectiva de comunhão e de participação” (ATV 5). A comunidade cristã, especialmente a comunidade paroquial, é o lugar privilegiado da catequese (cf CT 67); ela é a “origem, ambiente e meta” da catequese (ATV 4). É, por isso, tão urgente renovar a catequese como renovar a comunidade. De facto, só renovando a catequese e a comunidade ao mesmo tempo, se chega a construir uma comunidade viva, com verdadeiros catequistas que sejam “transparência real do ressuscitado”(cf E.Eur 27).

É também na comunidade cristã que o catecismo encontra o seu meio vital (cf ATV 7). Por outras palavras, o verdadeiro catecismo é uma comunidade unida e com a marca da comunhão, capaz de deixar transparecer a presença do Cristo pascal.

Os catequistas são mandatados, pois agem em nome da comunidade. “São eles o rosto e porta-voz da fé da Igreja” (ATV 5). Podemos dizer que os catequistas precisam de ter esta “marca” comunitária. Só catequistas bem ligados ao centro da comunidade, que é Cristo, e aos irmãos, em verdadeira comunhão, estão aptos para testemunhar e anunciar a Boa-nova. Catequistas de espírito comunitário, especialistas em construir comunhão, eis os mandatados que a Igreja precisa de enviar ao nosso mundo. Por isso, o catequista, como todo o cristão comprometido, tem hoje de desenvolver uma competência fundamental: a comunhão, respondendo ao apelo de João Paulo II às Igrejas da Europa: ser um verdadeiro espaço e instrumento de comunhão (cf E.Eur 28), pois “a vida fraterna dos discípulos de Jesus e a sua disponibilidade para o serviço gratuito é o testemunho indispensável para apoiar a evangelização” (ATV 5). Afinal esse testemunho de vida fraterna é já evangelização.

4. Vive uma espiritualidade

Imitando Maria, o catequista progride na vida interior. Cuidar a formação espiritual (cf ATV 7) é o desejo dos nossos bispos, no momento da dedicatória (aos catequistas) das presentes Orientações. A comunhão com Jesus Cristo conduz os discípulos a assumirem a atitude orante e contemplativa que o Mestre adotou. Trata-se de cultivar os mesmos sentimentos com os quais Ele se dirigia ao Pai: a adoração, o louvor, o agradecimento, a confiança, a súplica e a contemplação da Sua glória (cf DGC 85).

O catequista tem um contacto habitual com a fonte da vida que é a Eucaristia, com a prática da oração e a escuta da Palavra da vida (cf ATV 1). Vive a espiritualidade batismal, que é espiritualidade de comunhão com Deus e de amor pelos irmãos. Além disso, o catequista é sobretudo apóstolo e profeta. Profeta, porque anuncia a Boa Nova do Reino. Apóstolo, porque testemunha, na alegria, serviço concreto e amor recíproco, a presença de Jesus ressuscitado.
Ao mesmo tempo, o catequista sabe que é um instrumento da graça divina. Vive a paciência e a confiança de que é o próprio Deus quem faz nascer, crescer e frutificar a semente da Palavra de Deus (cf DCC 289).

5. O Catequista é um missionário

Na cultura da indiferença em que estamos mergulhados, torna-se “indispensável o anúncio explícito de Jesus como Salvador do homem, que conduza ao despertar da fé e da conversão “(ATV 3). O que significa então afirmar que o catequista tem de ser missionário?

  • Antes de mais, ele vai ao encontro de todos, dos não batizados, mas também dos batizados, e anuncia-lhes Jesus Cristo, sempre pelo testemunho do amor e da alegria e, quando as circunstâncias o permitirem e houver receptividade, através de uma palavra sábia e oportuna. A receptividade verifica-se normalmente se o inter¬locutor formula alguma pergunta fundamental, que seja sinal de procura e de abertura ao mistério.
  • O anúncio deve levar à conversão. O catequista sabe que a conversão é ação de Deus e por isso deve saber esperar, faz a sua parte mas não precipita os acontecimentos. Ajuda a dar um passo de cada vez. E, como “não podemos à partida pressupor a fé”(ATV 3), devemos ter sempre em mente que tudo o que fizermos e tudo o que fizer a comunidade tem de ter em vista sempre este grande objetivo: suscitar e fazer crescer a fé. O caráter missionário significa “assegurar a adesão à fé” (ATV 3), para, em seguida, a ajudar a crescer. Um grande erro da nossa ação seria considerarmos que estamos diante de convertidos, em vez de verificarmos a situação de cada um, as suas escolhas, o caminho feito, as dificuldades.
  • A opção fundamental por Cristo ou a primeira conversão tem de ser constantemente renovada. Quem evangeliza não pode apenas contar com essa primeira decisão, mas tem de ajudar à perseverança e ao crescimento da comunhão com Deus. Hoje vivemos tempos difíceis, de novo paganismo, que nos desafiam a exorcizar constantemente o egoísmo e a renunciar às “seduções do mal”. Devemos treinar a luta pelo bem, renovar a profissão batismal, por um sim constante a Deus.
  • Uma conseqüência da opção por uma catequese missionária está na mudança de atitude em relação aos catequizandos que chegam pela primeira vez à catequese. Mesmo se a maioria já celebrou o batismo, a muitos faltará o chamado despertar religioso. É então que catequista, catecismo e comunidade têm de se adaptar à nova realidade, começando do princípio, pelo primeiro anúncio.

Trata-se de “pôr em prática uma nova evangelização” (ATV 3), pela fidelidade ao Evangelho, mostrando o verdadeiro rosto de Cristo, máxima expressão do Deus amor. Num mundo feio, falso e mau, o catequista será um arauto da beleza, da verdade e do bem, pelo testemunho da alegria e do amor que fermentam a comunhão. A comunhão é a forma da beleza divina derramada sobre a terra. É urgente, por isso, “fazer da Igreja a casa e a escola de comunhão” (NMI 43), pois é a beleza de Deus que converte e salva.

6. Especialista em acolhimento

O catequista é “uma presença amiga, acolhedora e solidária” (ATV 3). “Presença e acolhimento” são palavras que resumem bem uma das atitudes fundamentais do catequista. A comunidade deve criar um ambiente de acolhimento fraterno e de vida cristã, procurando dar atenção a cada pessoa, na sua condição particular. “A comunidade cristã é chamada a acolher e a acompanhar o itinerário de crescimento na fé”, (ATV 4). O catequista, como membro especial da comunidade e seu porta-voz, é chamado a traduzir esse acolhimento em gestos concretos, apoiando o candidato (cf ATV 4).

Como se pode viver este acolhimento? Além do acolhimento normal que fazemos aos membros do grupo com vista a criar o ambiente propício para a catequese, acolher significa aceitar as diferenças, diferenças de educação, de atitude, de capacidade de estar em grupo. O catequista há de procurar não “selecionar” os membros do seu grupo e se tivesse de o fazer deveria ser capaz de privilegiar os menos simpáticos. Pela amizade e empatia, o catequista há de ser capaz de não desistir de ninguém, descobrindo em cada rosto uma presença de Jesus, a quem ele quer amar, servir e ajudar a crescer.

7. Respeitador do ritmo de cada um

A catequese “deve respeitar a mensagem e a pessoa concreta” (ATV 6). Nesse sentido, o catequista presta atenção às características psicológicas de cada um, oferece uma atenção individualizada. Cada catequizando é um caso único. Embora se trabalhe em grupos, não só pelas vantagens psicológicas, mas também pelas dificuldades de fazer de outro modo, o certo é que a fé que a catequese quer servir passa¬-se no íntimo misterioso de cada pessoa, como resposta ao amor divino. A fé tem uma dimensão comunitária, mas isso não significa massificação.

O catequista “precisa de ir ao encontro da vida real dos catequi¬zandos e de ter em conta as suas questões e experiências de modo a responder-lhes” (ATV 3), incluindo nesse “ir ao encontro” a atenção ao caminho de fé. O catequista tem de ser companheiro de viagem, peregrinar com o catequizando (ou catecúmeno) na procura da fé (cf DGC 232).

O catequista vive o respeito pelo ritmo interior do destinatário, sem deixar de atender à sua circunstância. De facto, a relação do catequista com o destinatário da catequese é de fundamental importância (cf DGC 1 86).

8. O catequista é um animador

Com os conceitos de testemunha, porta-voz, missionário, ficamos a saber que o catequista é alguém que exerce a sua missão sobretudo através do que é e do que vive em comunidade.
Porém, tudo o que é conhecimento humano ajuda à catequese. Por isso, não há contradição com o que fica explanado se dissermos que é “o catequista quem dá vida ao catecismo” (ATV 7). E o catequista dá vida fundamentalmente de duas formas: pelo que é (identidade) e pelo que faz (competência). Por isso, não se pode excluir a dimensão pedagógica (cf ATV 7) na missão da catequese.

O catequista procurará amadurecer a sua capacidade educativa, o que implica: a faculdade de ter atenção para com as pessoas, a habilidade para interpretar e responder à pergunta educativa, a iniciativa para pôr em ação processos de aprendizagem e a arte de conduzir um grupo humano até à maturidade (cf DGC 244).

O catequista é também um pedagogo, que tem como modelo a pedagogia divina do diálogo e do encontro. Mas ele sabe que não pode desprezar as dinâmicas educativas e de trabalho com grupos, a força da simbólica e os demais modernos meios de comunicação. O catequista é um animador, “utilizando com discernimento as técnicas de animação de grupo, que a psicologia oferece” (DGC 245). A catequese é também uma arte, um saber fazer.

9. O catequista, atento à cultura

A inculturação brota de um verdadeiro diálogo entre o Evangelho e as culturas, de uma interação que, por um lado, respeita a integridade da mensagem e, por outro, está constantemente atenta aos traços culturais de uma comunidade ou indivíduo. A catequese “num esforço constante de inculturação que respeite a integridade da fé, deve tornar o Evangelho acontecimento verdadeiramente significativo” (ATV 6).
Inculturar é fazer com que o Evangelho penetre no mais profundo das pessoas e dos povos, tocando o âmago da cultura (cf DGC 109).

O catequista é, ao mesmo tempo, uma expressão e um eficaz instrumento desta tarefa; a par de um profundo sentido religioso, deverá possuir uma viva sensibilidade social e estar bem inserido no seu ambiente cultural (cf DGC 110).
Uma das qualidades de um bom catequista é certamente o conhecimento que tem da cultura em que vive, num diálogo capaz de conduzir à interpretação de comportamentos, ao discernimento dos valores e ao anúncio do Evangelho numa linguagem que, sem deixar de ser verdadeira, está adaptada à sensibilidade dos catequizandos.

10. Sempre em formação

O documento começa por constatar que o programa atual contribuiu para uma “formação mais sólida dos catequistas” (ATV 1). Formação essa que deve ser “pedagógica, doutrinal e espiritual” (ATV 7). São as dimensões que correspondem ao ser, ao saber e ao saber fazer (cf DGC 238, 244).
É importante que haja uma formação de base (que inclua, de preferência, o Curso Geral). Depois, uma formação contínua. “A partir do exercício da catequese, a vocação apostólica do catequista, alimentada por uma formação permanente, irá amadurecendo progressivamente” (DGC 239). Esta formação contínua brota, por um lado, do próprio exercício da arte de fazer catequese e, por outro, deve contar com ações específicas e programadas.
Organizar adequadamente a formação dos catequistas quer no que diz respeito à formação de base, quer à formação permanente (cf DGC 333) é uma tarefa fundamental do pároco e dos catequistas coorde¬nadores.

Em suma, na catequese de iniciação cristã, a figura do catequista é fundamental. Chamado pela Igreja a exercer o serviço da catequese, tem de estar dotado de uma fé profunda, de uma clara identidade cristã e eclesial e de uma apurada sensibilidade social. Destaca-se pela sua maturidade humana, cristã e apostólica, assim como pela sua formação e competência catequética. O catequista é um guia espiritual dos catequizandos, acompanhando-os na maturação da fé.

Das características abordadas, ressalta a dimensão testemunhal, comunitária e missionária da catequese e, como tal, do próprio catequista. Ele é um porta-voz da Igreja comunhão, testemunhando alegremente a presença de Cristo ressuscitado.

(*) Mestrado em Teologia; Coordenador do Departamento de Catequese do Secretariado Nacional da Educação Cristã.

In Pastoral Catequética. Revista de catequese e educação, nº 3 (2005), pp. 53-61.
 
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1º Conferência Episcopal Portuguesa, Para que acreditem e tenham vida, 2005.